
A palavra bullying não existia na época em que
Gonçalo José Soares de Macedo era criança,
na década de 1970. O significado dela, porém,
era vivido diariamente por ele nas salas de
aula. Quatro décadas depois, quando foi
trabalhar como segurança e porteiro em
escolas na cidade de São Paulo, descobriu
o vocábulo e viu que a agressão, infelizmente,
seguia acontecendo. Para lidar com as más
lembranças e tentar ajudar os estudantes que
conheceu, resolveu escrever um livro, em
cordel, sobre o bullying.
Gonça, como é carinhosamente chamado por
amigos e colegas, nasceu em Cratéus, no
sertão do Ceará, em 1966. Na infância, tomou
gosto pela música regional e pela literatura de
cordel. Os números, porém, eram seu ponto
fraco. Seu baixo rendimento em matemática
fez com que fosse alvo de provocações de
colegas, principalmente de um primo.
“A gente ia a pé para a escola, e no caminho
todo ele dizia que eu era cabeçudo, ficava
falando mal. Na sala de aula ele falava para
o professor pedir para eu fazer conta. Eu
achava difícil, errava, e ele ria. Era o tempo
todo isso.” Além do bullying dos colegas de
sala, sofria com reprimendas de professores,
que o obrigavam a ajoelhar no milho. “Aprendi
a conviver com essa situação”, disse.
Com vergonha de contar para os pais ou para
algum dos seus oito irmãos, ele combatida a
tristeza correndo, ouvindo rádio e lendo poesia.
“Sempre gostei de música e comecei a
frequentar a igreja.” Foi lá que, aos 22 anos,
começou a se aventurar nas letras, se inspirando
nos versos de um artista regional chamado
Zé Vicente.
Os primeiros poemas de Gonça, que falavam
de Jesus Cristo e de passagens da Bíblia,
eram voltados aos fiéis da igreja que
frequentava. Os textos foram saindo e ele
descobriu naquele templo que poderia usar
o cordel como um meio de contar histórias
que marcaram sua vida.
Ida a SP= No começo da década de 1990,
veio morar em São Paulo. Depois de ser
segurança em um banco e em uma escola no
Morumbi, Zona Sul, foi trabalhar, em 1997,
como porteiro do Colégio Dante Alighieri, nos
Jardins, bairro nobre da capital paulista.
O convívio com estudantes e professores o
levaram a escrever um livro em cordel
contando a história do colégio. “Li bastante,
fiz resumos, transformei em cordel e
apresentei para a direção." A obra foi bem
recebida internamente e o colégio bancou
sua publicação em 2011, ano do centenário
da fundação do colégio.
Realengo e Columbine= Os primeiros versos
sobre o bullying vieram nesta época. “Lembro
de ver uma mãe que tinha um filho que sofria
bullying. Ela deixava o menino no colégio e
esperava ele entrar, bem aflita. Depois, ligava
para o psicólogo para saber o que deveria
fazer”, disse. O episódio é citado no seu livro:
A obra foi concebida no trajeto entre o
colégio e sua casa, em Guaianazes,
extremo Leste da capital. “Escrevia no trem,
no metrô e no ônibus.” Enquanto elaborava
as rimas, refletia sobre as causas e soluções
do bullying. “Você tem que desabafar para
resolver. Conversar sobre isso para ver se
passa”, disse. “O problema é tentar resolver
na violência.”
O livro foi lançado em 2015, com tiragem
de 700 exemplares. A obra é vendida a
R$ 20 no próprio colégio e em bancas na
Avenida Paulista.
Gonça conta que dois casos de violência
em escolas, que o impressionaram muito,
o fizeram escrever sobre o tema: os massacres
de Columbine, nos Estados Unidos, e do
Realengo, no Rio.
no Colorado. Eric Harris, de 18 anos, e Dylan
Klebold, de 17, detonaram bombas caseiras
e abriram fogo no colégio, matando
12 estudantes e um professor e ferindo
23 outras pessoas antes de cometerem
suicídio. A história é mencionada no livro:
de 2011. Na ocasião, o ex-aluno Wellington
Menezes de Oliveira, de 23 anos, entrou
armado na Escola Tasso da Silveira, na
Zona Oeste do Rio, e matou 12 adolescentes.
O jovem cometeu suicídio em seguida.
Relatos de parentes dos atiradores de
ambos os casos indicam que os agressores
sofreram bullying na adolescência. Para
Gonça, isso poderia ser evitado caso os
jovens tivessem falado sobre o assunto
com psicólogos e partentes. “Diálogo é a
chave de tudo. A gente se resolve.”
“Eu diria a quem vem sofrendo bullying
que não tenha vergonha de falar sobre isso.
Procure um professor, procure sua
orientadora, seus pais, alguém que possa
resolver o problema. Para que não deixe
a situação se agravar.”
Fonte: G1


0 Comentários